O livro como experiência de afeto, design e arte: uma pesquisa teórico-prática sobre o objeto livro.
Contexto e desafio
A pesquisa de mestrado partiu de uma inquietação pessoal e profissional: o livro é um objeto potente — mas por que, afinal, ele nos afeta tanto? Como designer editorial e leitora, sempre observei que o livro vai além do conteúdo: sua forma, sua materialidade, sua diagramação e sua estrutura visual influenciam diretamente a experiência de quem o lê.
O desafio foi construir uma dissertação que não apenas falasse sobre livros, mas que fosse ela mesma um livro — um objeto de design que pudesse ser lido, folheado, apreciado e guardado. Um metatrabalho no qual forma e conteúdo caminham juntos, onde a diagramação não é neutra, mas sim parte integrante da narrativa.
Diagnóstico e estratégia
A estratégia foi desenvolver uma pesquisa de natureza teórico-prática, estruturada em duas grandes partes: O livro admirado (abordagem teórica) e O livro experimentado (abordagem prática). A metodologia escolhida foi a a/r/tografia — uma abordagem de pesquisa baseada em artes que integra as três faces da pesquisadora: artista-designer, educadora e pesquisadora.
A decisão central foi trabalhar com uma perspectiva literária, permitindo que o texto científico fosse intercalado com fragmentos de ficção e notas de margem informais, criando um diálogo entre objetividade e subjetividade — uma característica que dialoga diretamente com a minha formação em design, onde a objetividade é constantemente permeada por escolhas subjetivas.
A dissertação foi organizada em quatro partes principais: o início (com prefácio autobiográfico), o livro admirado (design e afeto), o livro experimentado (cinco experimentos práticos) e as considerações finais (com posfácio). Essa estrutura permite que o leitor percorra o trabalho de forma fluida, mas também que possa pular para seções específicas de interesse — uma preocupação central no design editorial.
Direção criativa
O projeto gráfico da dissertação foi concebido como parte integrante da pesquisa, e não como um mero suporte. A capa e a luva — ainda que desenvolvidas em formato digital — remetem à estante de livros mencionada no prefácio, criando uma metáfora visual que atravessa todo o trabalho: o livro como objeto guardado, admirado e retirado da estante para ser lido.
A hierarquia visual foi pensada para guiar o leitor de forma intuitiva: títulos, subtítulos, notas de rodapé e notas de margem (um recurso que permite comentários informais à margem do texto principal) organizam a informação em diferentes níveis de leitura. As notas de margem, em particular, funcionam como uma camada extra de comunicação — um diálogo paralelo entre a autora e o leitor — que enriquece a experiência sem sobrecarregar o fluxo principal.
A tipografia foi cuidadosamente selecionada para garantir legibilidade e harmonia ao longo de quase 100 páginas. As imagens — muitas delas produzidas pela própria autora — são integradas ao texto como parte da narrativa, e não como ilustrações meramente decorativas. As duplas de páginas foram tratadas como unidades básicas do projeto, garantindo continuidade visual entre elementos e respeitando os princípios de diagramação editorial defendidos por Ellen Lupton e Jan White.
O formato escolhido foi o A5 (metade de uma folha A4), um tamanho próximo ao de um livro de bolso — propositalmente acessível, portátil e afetivo. Essa decisão reforça a ideia de que o livro deve ser carregado, lido em qualquer lugar e, acima de tudo, experienciado fisicamente.
Desenvolvimento e iterações
A dissertação foi desenvolvida ao longo de dois anos, com acompanhamento da orientadora e validação em bancas de qualificação e defesa. Os cinco experimentos práticos que compõem a segunda parte foram produzidos em diferentes momentos do mestrado, cada um explorando uma faceta do objeto livro:
- O livro de designer (2018) — um experimento autoral de design editorial que subverte a ideia de um manual convencional, transformando-o em um livreto rabiscado e pessoal.
- O Mapa Poeticósmico (2018) — um volume ensaístico que une prática e teoria através de um mapa metafórico, conectando a zona rural à cidade natal.
- O Campo de Estrelas (2014) — um híbrido entre livro ilustrado e novela gráfica, desenvolvido como projeto de graduação e posteriormente adaptado para artigo científico.
- Distopioteca (2019) — uma experiência literária imersiva, combinando literatura, tecnologia e gamificação (escape room) para celebrar o livro em um contexto interativo.
- Este livro (2019-2020) — a própria dissertação, concebida como um objeto de design que integra capa, luva, diagramação, notas de margem e fragmentos ficcionais.
Cada experimento foi pensado de forma autoral, com liberdade criativa, mas sempre fundamentado em referências teóricas — desde os princípios da Gestalt até as leis de hierarquia visual e legibilidade. O processo envolveu múltiplas iterações, ajustes tipográficos, revisões de layout e refinamentos na navegação do conteúdo.
Resultado e impacto
A dissertação foi aprovada em março de 2020 com banca composta por três doutoras das áreas de comunicação, educação e artes visuais. O trabalho contribui para a reflexão sobre o livro como objeto de design e afeto, demonstrando que o projeto editorial não é um elemento secundário, mas sim parte constitutiva da experiência de leitura.
Para a minha trajetória profissional, a dissertação consolidou competências essenciais para o design editorial de alto nível:
- Domínio de projeto gráfico e diagramação de publicações complexas (relatórios, teses, livros institucionais).
- Capacidade de criar sistemas visuais com hierarquia, consistência e acessibilidade.
- Experiência em visualização de dados e infografia, aplicada em gráficos, tabelas e diagramas presentes na pesquisa.
- Conhecimento de metodologias de design centrado no usuário, evidenciado pela preocupação com a legibilidade, navegação e experiência do leitor.
- Habilidade de integrar teoria e prática, transformando conceitos em objetos concretos e funcionais.
Além disso, a dissertação foi adaptada para formatos digitais e impressos, com versões em PDF acessíveis e arquivos editáveis — uma prática que antecipa as exigências atuais de transparência e acessibilidade na comunicação pública.
Ficha técnica
- Tipo: Dissertação de Mestrado em Artes Visuais
- Título: Escolha pela forma este livro da estante: o livro como experiência de afeto e design e arte
- Instituição: Universidade Federal de Pelotas (UFPel) — Centro de Artes
- Ano: 2020
- Formato: A5 (projetado), digital + versão para impressão
- Estrutura: 4 partes principais + prefácio, posfácio e fragmentos ficcionais
- Experimentos práticos: 5 projetos autorais de design editorial
- Metodologia: a/r/tografia e perspectiva literária
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